By erique
PAULO JAMES
José Lopes, um amante da natureza, nascido às margens do rio Ipiranga que passava nos fundos da casa de seus pais
Quando Deus criou o mundo e o homem, foi para que houvesse total equilíbrio e que gerasse um convívio harmônico entre ambos e, que existisse respeito entre o homem para com a sua mãe natureza, onde ele poderia tirar da terra todo o seu sustento e desfrutar de tudo que ela lhe oferecesse, e não tinha o direito de destruí-la. Entretanto, a ambição de alguns é tanta que chegamos ao cúmulo de assistir, a cada dia que passa, a ganância e a ignorância andarem de mãos dadas destruindo a flora e a fauna com as queimadas e desmatamentos, sacrificando todos os seres vivos em nome do dinheiro fácil.
A natureza já começou a soltar o seu grito de socorro por todo o planeta, e como dizia o mestre dos mestres “Aquilo que o homem plantar ele vai colher”. A natureza tem mandado o seu aviso através de catástrofes como terremotos, erupções vulcânicas, tornados, tsunamis e enchentes. O que antes parecia ficção cinematográfica, agora faz parte do nosso dia a dia. A fúria da natureza chega às nossas vidas com força total, a natureza está emitindo seu boleto de cobrança.
O sinal vermelho para nós começou em Santa Catarina, passando pelo Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo. Segundo os especialistas, essas enchentes estão entre as piores que já ocorreram em todo o território brasileiro. A culpa de tudo isso é do próprio homem que, com seu espírito ganancioso, não conhece limites e busca, cada vez mais, o enriquecimento ilícito destruindo tudo à sua volta. O homem destrói a fauna e a flora, desmata florestas e agride o eco-sistema poluindo rios, mananciais, além de aumentar as queimadas. Agindo dessa forma desenfreada e sem limites, vai aumentando o aquecimento global e, a natureza por sua vez, reage e responde em forma de catástrofes colocando em perigo todo o planeta terra.
Em Paraguaçu Paulista a ONG Salvar, sob a presidência do meu amigo Humberto Brisola, conta com a ajuda de voluntários - amantes do meio ambiente - que têm manifestado a sua preocupação com os nossos rios e as nossas matas procurando conscientizar as pessoas da importância de se respeitar a natureza.
A ONG faz distribuição gratuita de mudas nativas para serem plantadas no nosso município e região, e tem agido bravamente denunciando irregularidades que agridem o meio ambiente.
Um desses voluntários do meio ambiente chama-se José Lopes, nascido na Maternidade de São Paulo, a uma quadra da Avenida Paulista, em 05 de janeiro de 1943 e registrado no Bairro do Bexiga. Descendente de espanhóis passou a sua infância às margens do famoso Rio Ipiranga, onde D. Pedro I deu o grito da Independência. Ele traz perpetuado em sua memória as fortes lembranças de uma São Paulo pacata, onde ele corria, brincava, nadava e pescava às margens do rio Ipiranga, que ficava a 5 quilômetros da Praça da Sé. Naquele tempo, o local onde ele morava tinha um ar interiorano e muito bom de se viver, sem trânsito nem violência. O menino José aprendeu a ler e a escrever numa escola construída pelo Visconde Vicente de Azevedo. Ele conta que teve uma infância muito feliz e foi, ainda nessa fase de sua vida, que viu as fábricas se instalarem às margens do rio Ipiranga e, aos poucos, começarem a poluir e matar os peixes ali existentes. Em 1954 ouve a retificação do rio, aonde foi construída uma das principais avenidas de São Paulo.
José Lopes se lembra de sua juventude, no auge dos anos sessenta, que foi embalada ao som de muita música e pelos famosos bailes de garagens. Eram tempos do Rock n’ Roll, Jovem Guarda e Bossa Nova, dos pioneiros Elvis Presley, Celly Campello e João Gilberto; eram tempos da magia dos discos de vinil, conhecidos por bolachões. Os bailinhos e bailões da época tinham como marca registrada o som da orquestra de Ray Coniff, que imortalizou músicas como “Besame Mucho”, “La Última Noche”, “La mer”, “Aquarela do Brasil” e muitas outras.
Ele começou sua vida estudantil na escola do SENAI e, no terceiro ano, entrou para escola técnica Getúlio Vargas onde se formou em Mecânica, fazendo posteriormente, especialização em desenhos industriais.
Ele conta como foi que um autêntico paulistano, da terra da garoa, veio para o interior de São Paulo. Essa história começou quando encontrou a jovem paraguaçuense Vanda Vaz Lopes passeando pela Praça Ramos de Azevedo, há 30 anos, e ali começou uma história de amor: namoraram e casaram-se na Igreja Ortodoxa Americana. No ano de 1995, o casal veio com toda a família para Paraguaçu Paulista e disse que guardam até hoje, com muito carinho, a recepção que tiveram em nossa cidade. Fixaram residência no Bairro da Barra Funda e foi ali que conheceu Humberto Brizola de quem ficou amigo. Com o tempo a amizade foi crescendo e o interesse dos dois pela causa comunitária foi aumentando, até que surgiu a ideia de se fundar uma Associação de Moradores para melhor atender o bairro.
A reunião de fundação da associação foi realizada no salão da Igreja Santo Antonio com um número bastante expressivo de pessoas e, entre os presentes estavam José Lopes, Humberto Brisolla, Isidoro da Silva Lopes, Luiz Bezerra e muitos outros. Foi eleita a primeira diretoria e, dentro dela, foi criada uma divisão para cuidar do Meio Ambiente. A primeira manifestação do grupo foi uma passeata que entrou para história como a maior passeata já realizada em Paraguaçu Paulista, em prol do meio ambiente, que envolveu toda a população, e que teve a participação do então prefeito Carlos Arruda Garms e da presidente da câmara vereadora Almira Ribas Garms. A passeata saiu de frente da igreja Nossa Senhora da Paz, a Matriz, e desceu até as margens do Rio Alegre. Durante o manifesto foi recolhida uma grande quantidade de lixo nas cercanias do rio e o grupo, naquela ocasião, plantou 100 mudas de árvores às margens do rio Alegre. Foi o ponto de partida para a criação da Ong Salvar que já conta com 600.000 unidades de mudas plantadas por todo município. A ONG Salvar de Paraguaçu faz parte de um braço da “SOS Mata Atlântica”.
José Lopes também falou a respeito das principais causas do assoreamento dos rios, dizendo: “os assoreamentos nos ribeirões e córregos, lagos, lagoas e nascentes estão relacionadas com os desmatamentos, tanto das matas ciliares quanto das demais coberturas vegetais que, naturalmente, protegem os solos. A exposição dos solos para práticas agrícolas, exploração agropecuária, mineração ou para ocupações urbanas em geral, acompanhadas da movimentação de terra e da impermeabilização do solo, abrem caminho para os processos erosivos e para o transporte de materiais orgânicos e inorgânicos, que são drenados até o depósito final nos leitos dos cursos d’água e dos lagos”. Ele disse ainda que “durante a última década, a situação agravou-se em função da degradação ambiental, decorrente da intensificação do processo de uso e ocupação do solo em toda a bacia”. Explicou que, caso o processo de assoreamento não seja controlado mediante a adoção de medidas urgentes de recuperação de áreas degradadas, reflorestamento das matas ciliares, implantação de sistemas adequados de drenagem e ordenamento e fiscalização do uso e ocupação do solo, poderão colocar em sério risco a sustentabilidade de nossos rios, especialmente para as gerações futuras, e ele faz questão de lembrar que: “água é vida”.
Lopes disse que a ONG faz o que está ao seu alcance, fotografando, orientando e fazendo denúncias, mas é necessário, com urgência, um trabalho de prevenção que não é feito e, muitas vezes, os que são responsáveis para cuidar do meio ambiente não cuidam e deixam acontecer; aí, quando se quer correr atrás do prejuízo, já é tarde.
A sorte de Paraguaçu, segundo José Lopes, é que tem um promotor do meio ambiente comprometido com a causa, o dr. Luís Fernando Rocha.
“Se a população não despertar a tempo para conscientização, o mundo poderá viver lenta e gradualmente um Apocalipse”, disse.
Perguntei a seu José Lopes se ele tivesse duas medalhas para agraciar dois defensores da natureza em Paraguaçu, no peito de quem ele colocaria; ele disse que, em nossa cidade, ele daria essa medalha para duas pessoas que têm um grande comprometimento com o meio ambiente: Humberto Brizola Neto e Isidoro da Silva Lopes, o Dorinho.
Foto dos anos 50 mostrando o Rio Ipiranga, próximo da casa de José Lopes
Oclésia, Zé Lopes, Dorinho, Humberto e Márcia
José Lopes ajuda uma garotinha a plantar uma árvore